A partir desse dia passou a guardar com ele os seus segredos. Sempre que podia voltava à casa de Belém e confessava longamente o que lhe ia na alma. O avô Segismundo, veio a saber muito mais tarde o seu nome, assistiu com uma atenção permanente ao desenrolar dos primeiros amores, dos primeiros trabalhos, dos sonhos e das viagens. Nunca a censurou. Mostrava uma compreensão sem limites do alto da sua parede e uma ternura que Anna não conseguia sentir em nenhum outro ser. Depois da avó Cornélia ter partido, Segismundo mudou-se para o apartamento dos seus pais. Anna continuou a visitá-lo sempre que regressava a Lisboa para lhe falar dos desamores e outros problemas da sua solidão executiva de saltos-altos e caviar em primeira-classe. Visitava-o já com os filhos crescidos e com o fim da carreira a mandá-la para o sossego da casa do Alentejo. Era esse avô o único homem que ela em toda a vida conseguiu olhar nos olhos e despir-se de si. Agora estava na sua sala da casa de Évora, rodeado como ela de memórias e outros livros. Fazia-lhe companhia ao serão e tinham longas conversas enquanto crepitava lentamente a lareira da sala grande da casa da Travessa. Ontem teve uma boa notícia. Segismundo revelou-lhe que a Aninhas, a sua neta mais nova, no último fim-de-semana de visita da família, esperou que todos se fossem embora, fechou atrás de si a porta da sala, pôs-se em bicos de pés, olhou-o nos olhos e chamou-lhe avô.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Travessa de Ana Vaz
Desde que se lembra de existir que sempre teve um fascínio por fardas e autoridade de botas-engraxadas. Provavelmente por causa do seu tetra-avô da Prússia, que lhe ficou de herança em tela, depois de se terem ido com as duas guerras todos os títulos, pergaminhos e anéis da família. O avô de Anna era um nobre como os demais, um homem de faces rosadas e longas patilhas em curvatura até ao farto bigode retorcido. Careca proeminente, sobrancelhas carregadas e papada real. Vestia uma casaca em azul-marinho engalanada a dourados, com uma corrente a cair-lhe do ombro esquerdo ligada à imensidão dos feitos heróicos, agarrados ao peito em forma de medalhas e outras comendas. Mãos postas, ar altivo e de olhos pequenos, brilhantes e vivos. Anna sempre achou que aquele avô a seguia para todo o lado. Onde quer que estivesse sentada, na imensa sala de jantar da avó Cornélia, os olhos daquele homem olhavam-na de frente. Andou que tempos a tentar deslindar aquele mistério de pressentir que não era de tela e tinta o avô que a olhava com tanta presença. Um dia sem ninguém dar por isso esgueirou-se e fechou a porta da sala sem fazer barulho. Assomou-me então ao aparador, que estava por baixo da pintura a encher a parede de história, pôs-se em bicos de pé para ficar o mais perto possível dele e olhou para cima. Aí, ao sentir aqueles olhos totalmente fixos nos seus, teve a certeza absoluta que por trás da corrente dourada sobre a farda azul, batia um coração.
A partir desse dia passou a guardar com ele os seus segredos. Sempre que podia voltava à casa de Belém e confessava longamente o que lhe ia na alma. O avô Segismundo, veio a saber muito mais tarde o seu nome, assistiu com uma atenção permanente ao desenrolar dos primeiros amores, dos primeiros trabalhos, dos sonhos e das viagens. Nunca a censurou. Mostrava uma compreensão sem limites do alto da sua parede e uma ternura que Anna não conseguia sentir em nenhum outro ser. Depois da avó Cornélia ter partido, Segismundo mudou-se para o apartamento dos seus pais. Anna continuou a visitá-lo sempre que regressava a Lisboa para lhe falar dos desamores e outros problemas da sua solidão executiva de saltos-altos e caviar em primeira-classe. Visitava-o já com os filhos crescidos e com o fim da carreira a mandá-la para o sossego da casa do Alentejo. Era esse avô o único homem que ela em toda a vida conseguiu olhar nos olhos e despir-se de si. Agora estava na sua sala da casa de Évora, rodeado como ela de memórias e outros livros. Fazia-lhe companhia ao serão e tinham longas conversas enquanto crepitava lentamente a lareira da sala grande da casa da Travessa. Ontem teve uma boa notícia. Segismundo revelou-lhe que a Aninhas, a sua neta mais nova, no último fim-de-semana de visita da família, esperou que todos se fossem embora, fechou atrás de si a porta da sala, pôs-se em bicos de pés, olhou-o nos olhos e chamou-lhe avô.
A partir desse dia passou a guardar com ele os seus segredos. Sempre que podia voltava à casa de Belém e confessava longamente o que lhe ia na alma. O avô Segismundo, veio a saber muito mais tarde o seu nome, assistiu com uma atenção permanente ao desenrolar dos primeiros amores, dos primeiros trabalhos, dos sonhos e das viagens. Nunca a censurou. Mostrava uma compreensão sem limites do alto da sua parede e uma ternura que Anna não conseguia sentir em nenhum outro ser. Depois da avó Cornélia ter partido, Segismundo mudou-se para o apartamento dos seus pais. Anna continuou a visitá-lo sempre que regressava a Lisboa para lhe falar dos desamores e outros problemas da sua solidão executiva de saltos-altos e caviar em primeira-classe. Visitava-o já com os filhos crescidos e com o fim da carreira a mandá-la para o sossego da casa do Alentejo. Era esse avô o único homem que ela em toda a vida conseguiu olhar nos olhos e despir-se de si. Agora estava na sua sala da casa de Évora, rodeado como ela de memórias e outros livros. Fazia-lhe companhia ao serão e tinham longas conversas enquanto crepitava lentamente a lareira da sala grande da casa da Travessa. Ontem teve uma boa notícia. Segismundo revelou-lhe que a Aninhas, a sua neta mais nova, no último fim-de-semana de visita da família, esperou que todos se fossem embora, fechou atrás de si a porta da sala, pôs-se em bicos de pés, olhou-o nos olhos e chamou-lhe avô.
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