Ele queria-a tanto a seu lado para avivar os calores do frio.
Mas Sílvia fugia-lhe. Sempre tensa. Apertada nos músculos que a definhavam. Recolhida. Insonsa. Vergada sobre o seu próprio corpo como um bicho-de-conta. Queixosa e rabugenta.
Ele falava-lhe nas virtudes dos artesãos; das fábricas que produziam e das lojas que vendiam. Nos sobretudos, nos blusões, no gozo do barrete ou do boné de feltro, na samarra, nas botas de carneira forradas a pelo. E aqueles casacos fantásticos tricotados com lã virgem que até pica a pele? os cobertores de papa tecidos com lã churra de ovelhas que já quase não há, a cheirar a infância? As escamas no corpo das pessoas, cebolas humanas, chouriços de nariz vermelho de pingo a cair, os apuros só para descalçar a luva da mão direita em busca dum lenço perdido nos confins do bolso…cruzando com escárnio o vizinho, que escolhe lavar o pingo na manga. Coisas próprias de nós. Fruto de alternância em estações. Todas divertidas ou belas se assim o decidirmos; todas boas se sentarmos o coração à camilha de braseira.
Mas Sílvia, sempre reclamando o verão, a nudez, a luz, os banhos de sol, os prazeres da praia.
- Sai, sai minha querida, sai. Que não percebes nada. Não é o tempo que está frio. És tu que és Inverno em qualquer estação, a qualquer hora dos dias...
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