Largou a pasta de trabalho, correu ao quarto no fundo do longo corredor, descalçou-se, enfiou as pantufas de carneira e voou à cozinha para um relaxante chá de menta. Caneca às flores que a Tia Rosa oferecera no Natal, um pratinho de biscoitos que trouxera do Sr. Gaspar que além de carne vendia doçarias e legumes, pousou tudo em cima da mesa em frente ao sofá. Apercebeu-se de que se esquecera de tirar o casaco que despiu não tendo já coragem de o ir pendurar ao bengaleiro da entrada; atirou-o para a cadeira estofada do canto.
Neste momento teve de parar um pouco, pobre Carminda, que aquilo era uma aflição todos os finais de tarde em dia de leituras novas; ia começar o calvário.
Diante da estante percorria com os seus olhos gulosos a risca de cores desalinhadas. Enquanto em goles pequenos o chá lhe ia suavizando as dores de cabeça com que acordara, amortizando um pouco os músculos, a contracção, a nervoseira. As lombadas aguardavam-na, com pose de senhoras finas. Embora prontas para a briga. Eram inúmeras, variadas, quase todas coabitando, ali espartilhadas, desde o tempo do seu pai que como ela passara horas de alheamento absoluto a velejar naquele fabuloso oceano de letras.
Carminda suspirou com o corpo todo. Percorreu de olhos fechados os pés, as canelas, as pernas, distraiu-se um pouco na zona do umbigo, do ventre, e voltou a fechar os olhos que só abriu depois de completo o exercicio de relaxamento. Descontraiu o pescoço, rodou os ombros em desenhos circulares, para cima, para baixo, sacudiu as mãos, desfez-se, o melhor que soube, do manto de tensão.
De costas viradas, lombada azul, ferro em ouro com letras bonitas gravadas por mãos que já não há, lá estava ele. O livro escolhido para começar nesse dia. Aproximou-se da prateleira, levantou a mão muito devagarinho, vai a retirá-lo do seu lugar e zás!! era sempre aquilo!
De cada vez que Carminda ia buscar um livro "novo" havia sarilho. O livro não queria ser incomodado, escapava-se-lhe. Recolhia-se atrás dos companheiros, corria, em tropelia, por trás deles, escapando à mão que o queria alcançar. Carminda abraçava, braços esticados, os livros descompostos agora; alguns caíam desequilibrados para o chão, outros tombavam sem o encosto do lado, e o livro escolhido agredia-a com mau génio atirando-lhe à cara alguns parceiros de capa dura, chegando ao ponto de por vezes a ferir. Às tantas a estante despia-se e, nessa altura, começava o confronto final. Carminda conhecia este calvário de cor. Frente a frente, olhos nos olhos, abria as mãos devagarinho e num gesto repentino, zuca! agarrava em palmas o cobiçado foragido.
Extenuada sorria, sorria sózinha na sua sala enorme; sabia que acabava por vencer, sempre. Os seu livros tinham personalidade própria, ginete, mau feitio, e sentiam-se no direito de não ser incomodados. Ela adorava-os assim. Depois de domados, transformavam-se em dóceis amigos de partilha. E o calvário acabava. Carminda deliciava-se então em leitura sôfrega, sabendo que assim que a terminasse tudo começaria de novo.
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