
Tenho a convicção inabalável das pedras da calçada. Hão-de caber no seu sitio e fazer do preto o contraste da portugalidade rendilhada a maço, areia e água. Vejo os calceteiros no agacho do sol da tarde, com o lenço suado a sair do chapéu poeirento e penso nisto. Solidarizo-me depois com eles no arquear das costas a alombar com a jorna de fazer um sitio de se pisar. Olho de seguida para o amontoado das pedras brancas e pretas e sinto nos meus dedos calejados, a repetição ardente desta coisa de ser operário-artista a escrever com a dureza das palavras uma história onde se possa andar por cima.Há quem faça fontes. Eu do mármore conto histórias. Letras. Sílabas. Palavras. Até que se encaixem em desenhos por onde saia água que me mate esta sede de escrever.
Há os que levantam catedrais com o granito para chegar a Deus. Eu com Ele faço rimas, à falta de melhor para chegar a mim.
Há ainda os que de escopo em riste escrevem epitáfios na lápide que encerra um tempo. Prefiro esculpir capítulos com a prosa quente da minha carne-viva.
Acerco-me do amontoado das pedras e pego numa. Com o polegar percorro a aresta rugosa. Sinto a irregularidade da forma enquanto os dedos se me enchem de pó. Ignoram-me os homens cabisbaixos de olhos postos na calçada por fazer, martelando a sua repetição. Ainda bem. Deles só quero a constatação da obra feita. Não quero palavras. Essas vejo-as no polimento do fontanário à minha frente a jorrar límpido em catadupas.
Subo os degraus até ao frescor da água. Olho para baixo e vejo-me ir ao fundo, ganhar volume e novas formas no ondulado circular da minha imagem. Refresco-me deste sol abrasador. Olho para o lado e vejo os calceteiros continuarem meticulosamente a ladear calhaus, agora irmanados em desenho geométrico. Dá-me uma vontade súbita de papel e caneta. Volto-me e já não vejo o monte de pedras. Vejo sim palavras para escrever. Agarro-as. Meto-as nos bolsos e sento-me ali mesmo a fazer delas coisa viva.
Tudo dá para fazer palavras. Novas, velhas, inventadas, carcomidas, renovadas. Orgulho de ti, de mais uma descoberta de mais uma coisa que fazes tão bem :-)
ResponderEliminarConcordo em absoluto com o que J. disse e acrescento: que nunca a tinta da caneta te seque, mesmo que batidas as letras num teclado nusical.
ResponderEliminarUm abraço e... venha lá um livro!!!
Adorei esta como nos desenhos estás a sair para fora de ti...
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